domingo, 27 de fevereiro de 2011

Homenagem Póstuma a um (Des)conhecido.

Carta do Sol

Chove,
E hoje meu corpo é complacente ao céu,
No limite que me concede chegar aos teus pés, choro.

Não entendo sua dor, não tento.
O abstrato não me permite comparação
Jorram lágrimas de lembranças,
As mais próximas que eu tenho de sua dor.
Não lhe confortam, eu tento.

Nunca tive um parente que se foi, me deixou, mesmo assim perdi um amigo, o mais leal de todos, meu presente precioso, o tipo de amigo que lhe define, lapida, transforma, reforma e se vai.
Esteve comigo por 15 anos, eu não reparei, me ajudou, não lhe agradeci, me alegrou, eu sorri.
Se foi, eu não estava lá.

Vazio.

Saudade.

Choveu.

Remorso.

Quão perto estamos realmente um dos outros nesse mundo globalizado?
Tanto quanto sempre estivemos, muito longe.
Temos apenas a ilusão de proximidade.
Estamos limitados aos nossos pés, ouvido, coração.

Culpa.

No meu mundo de férias e diversão, eu não vi, não senti.
Queria estar lá, segurar por uma última vez meu amigo.

Lembrei.
De tantos momentos quantos poderia lembrar naquele momento.

Chorei.
De tristeza, não o teria mais.

Depois, chorei.
De alegria, por ter-los vivido, presenciado

Por fim, chorei, sorrindo
De esperança de no futuro poder encontrá-lo, esperança da sua paz

Restou apenas o remorso, e este eu trago comigo, pois por mais que não haja culpa, apenas restou.

Revivi.
Sem culpa de poder sorrir sem ele, egoísta o suficiente para saber que era isso que meu amigo gostaria, e com a certeza de que minhas lembranças o honravam.

As minhas únicas palavras que teriam alguma chance de conforto, não saíram com minha voz, por isso escrevo hoje.

O quão conhecido pode ser um desconhecido?

Impressões.


Em memória de Zêzê, Heinz, 
um amigo especial de um amigo especial.


Yuri Alvarez Sousa
31/10/2010

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